LEMBRANÇAS  QUE  FICARAM   

 Aguarde... Lennon vai cantar                       

Você chegou a essa página por acidente, pois o link para ela não está claramente exposto na homepage, propositadamente.

Mas para melhor entender o que digo abaixo, é preciso que você tenha lido a página anterior,  que  você pode acessar clicando aqui

Depois, lembre como fez para chegar aqui e repita.

 Esta página estará sempre em construção. 

                                            Sempre.

 

 

                                                                                                   

                       

Nesse dia ela estava de branco


 

   Querido Diário

 

 

          A década de 50 estava chegando ao fim e foi quando nos conhecemos. Nada mais que olhares, o que já era muito, naquela época quase assédio (brigava-se nos bailes, por causa de olhares)

           Era um olhar apaixonado, verdadeiramente interessado. O meu demonstrando afeição   e até desejo, o dela recatado e tímido.

            Por um bom tempo ficamos nos olhares e sorrisos mal disfarçados. Mais tarde  pegamos na mão um do outro e foi muito bom. O primeiro beijo demorou bastante e foi meio sem jeito,   porque éramos ambos, marinheiros de primeira viagem.

             A cada dia era uma nova descoberta e o dormir e sonhar, uma viagem. Ela tinha o   rosto arredondado, olhos amendoados, lábios grossos e corpo bem dosado,   com  ombros e   joelhos que não mostravam aquela feia ossatura de algumas mulheres muito magras.  Coloque   o sorriso da foto aí de cima, numa gatinha de 13, 14 anos. Irresistível.

              Nosso namoro e noivado duraram 10 anos, antes que chegássemos ao casamento.      

  

   Filme de Terror

 

    

      Dia 10 de fevereiro de 2006.    São 1400 horas e Sueli não está nada bem. Está imóvel,  sua  respiração está pesada e ela não abre a boca,    para que eu goteje o medicamento contra dor. Algumas amigas dela estão aqui em casa e se preocupam. Ela parece nada ver, o olhar é vago e ela não tem reações.   Troco rapidamente de roupa e as amigas a ajudam a chegar até meu carro. Embarco e parto em disparada, em direção ao HCE (Hospital Central do Exército).

           Pelo caminho, mantenho uma das mãos na direção e com a outra, tento reanimá-la, fazer com que reaja de algum modo, que olhe para a calçada, para o movimento da rua.    É uma viagem terrível e mal consigo evitar bater     nos outros carros. Estou tenso, mas concentrado. Ela vira os olhos,olhando para o teto do carro, boca aberta, como se tentasse respirar. Eu empurro sua cabeça para a frente, para que ela fique consciente. Finalmente  chego à  Ponte   Rio- Niterói mas concluo que não  haverá tempo para chegar ao hospital.   Desisto da Ponte e sigo para a Policlínica Militar de  Niterói, onde  os  recursos   são poucos, mas nesse caso, é a melhor opção.

            Salto do carro  dentro da clínica e grito: "ela não está respirando!" - como um modo de acelerar o atendimento, que sei ser necessário e urgente. A plantonista aciona um soldado  que célere, traz uma cadeira de rodas.   Eu   a coloco na cadeira e conduzo até o interior do Pronto Atendimento.  Lá,  além da plantonista, vejo chegarem vários médicos, cerca de 5  ou  6,    que     me pedem para que aguarde fora.   Saio e não se passam mais  que  10   minutos para que todos voltem e me cerquem.   Explicam que ela não  respondeu     a nenhum dos procedimentos,   que estava muito fraca e não foi possível   fazer nada.

             Entro, me aproximo dela, fito seus olhos pela última vez e os fecho, seus olhos amendoados ainda tentam, parece (?),  ver a vida  que   se     lhes escapa suavemente. Também tento fechar sua boca, mas ela volta a se   abrir.   Posso sentir que  uma  calma expressão toma conta de  seu  rosto,   de    seu corpo.

             Pego então suavemente sua  mão pela última vez, e a coloco   sobre seu corpo.   Parece   tão bem,  tão  tranqüila,  como se acabasse de sair   de um sonho ruim. Tento sentir que ela está confortável. Está tão serena que    é difícil não falar algo com ela. Fico ali, segurando suas mãos   por um   tempo. Espero um   movimento qualquer,  um  movimento  de cabeça, mas ela dorme suavemente

             Meus ombros se arqueiam, me sinto muito cansado.

             Sento-me na parte externa do atendimento e tento pensar.   Respiro fundo e começo    a  ligar para providenciar o funeral.   A dor da     saudade rapidamente se instala e o  coração claudica  e pulsa meio descontrolado.   O cansaço aumenta, Não é sono, é cansaço, talvez uma   queda    na     pressão arterial. Faço as ligações e espero as providências. E fico esperando  que ela saia pela porta dizendo: "vamos?". Dolorosa e vã esperança.     

              Sei que muita gente passa por situação parecida, mas não     desejo isso para ninguém.


   Doces Lembranças

 

          Sueli era uma pessoa única. Não cantava, não cantarolava, não assoviava e não era de fazer declarações de amor. Dia 06 de fevereiro de 2006. Voltávamos da consulta médica, a última que ela teve, quando no carro, ela tristemente me disse, sem nenhuma razão, ou sem que estivéssemos falando sobre isso: "Você sabe que eu gosto de você não sabe?"

           Era um modo dela me agradecer, recompensar, por tudo que eu fazia por ela nos    últimos quinze anos, tempo que durou sua doença. 

            Em quinze anos, ela nunca foi ao hospital sozinha ou com outra pessoa que não fosse    eu. Isso porque somente eu sabia como agir, que providências tomar, no hospital.


   Doces Lembranças

 

          "Vamos casar?" - dizia ela. e eu respondia que não. Que minha situação não estava ainda definida no Exército e que teríamos problemas mais tarde. Quando me firmei na Força, ela volto a me perguntar a mesma coisa e de novo respondi  não. Expliquei que não me sujeitaria a pagar aluguel, que nos casaríamos quando eu tivesse onde morar.

            Com certa dificuldade, comprei o terreno e passei a construir,  escolhendo com calma   o tipo de casa que serviria para nós, com bastante espaço, dois quartos, ampla cozinha, etc.

             Claro que isso demorou, mas valeu a pena, porque quando casamos, mesmo sem a casa estar ainda pronta totalmente, não tínhamos o peso do aluguel. Isso foi em 29 de março de 1969. Sempre vivemos ali, com exceção do tempo em que moramos em Três Corações, Minas Gerais, durante curso militar. Mas foram apenas seis meses e sempre vínhamos no fim de semana,   para que ela pudesse abrir portas e janelas e cuidar das plantas, das quais ela gostava tanto. Era uma viagem cansativa, de mais de 400 km, mas eu fazia com gosto, pois estavam no carro as pessoas que eu mais amava, ela e nossa filha, então com apenas 4 meses de idade , mas que não dava trabalho algum, apesar da distância e do tempo da viagem.   

               Tempos duros, trabalhosos, financeiramente difíceis, mas saborosos.


   Coisas difíceis

 

   

        Idos de julho de 1991. Voltávamos de carro, do HCE, onde recebemos a triste notícia que confirmava a suspeita: Sueli realmente tinha um nódulo no seio esquerdo, medindo 2x1 cm. Engraçado é que o médico dela, depois de a examinar, em janeiro daquele mesmo ano,  dissera que ela poderia ficar tranqüila, ela não tinha nada. Podia ter pedido u'a  mamografia, afinal, quem reclamara fora a própria paciente, mas do alto de sua competência, achou-se o dono da verdade e   concluiu que seu exame era o suficiente, seus dedos diziam mais do que um exame completo.

            Mas como eu dizia, voltávamos abatidos pra casa. Sabíamos da gravidade daquela situação e do que teríamos pela frente, operação, tratamento, dias perdidos em hospitais, essas coisas.

            Saímos da Ponte em Niterói e pegamos a Alameda São Boaventura, até o início da   RJ-104. Ali há uma subida íngreme, e foi durante essa subida, lembro como se  fosse hoje,  que ela, pensativa,  comentou: "quem diria que eu iria morrer dessa doença?..."


   Coisas difíceis

 

   

     Primeiros dias de fevereiro de 2006. São duas horas da madrugada. Estou na sala, sentado numa poltrona, procurando algo que ainda não tenha lido no jornal. Ela está sentada na outra pol trona, pois não pode se deitar (algo a impede de ficar deitada, talvez o inchaço no abdômen).

         Eu a vigio constantemente, pois ela pode querer água, refrigerante, cigarro, ou mesmo ir ao banheiro que ela não consegue mais ir sozinha.

         Mas ela nesse momento não cochila. Está olhando para o tapete, mas seu olhar é vazio   e ela parece não ver aquilo que olha. Seu olhar é opaco, inexistente. Como se na verdade, ela não estivesse presente. Então, lentamente, mecanicamente, ela vai levantando a cabeça e nossos   o- lhares se cruzam. Quantas vezes nesses longos anos, cruzamos nosso olhar e entendíamos   sem falar aquilo que o outro queria dizer. Quantas vezes.  Mas não nesse momento,    aquele olhar é diferente.

          Ela olha para mim, ternamente, tenta ser lúcida no que vai falar e me diz, em voz baixa  e soturna: "eu vou morrer, não vou?".


   Querido Diário

 

  

        Lembram do filme "Blade Runner - o Caçador de Andróides"? Perto do final o personagem de Hutger Hauer, um "replicante", tem um belo monólogo. Nele ele fala sobre as maravilhas    que viu enquanto vagava pelo espaço e termina, prevendo sua "morte" iminente: "...    tudo isso se perderá, como lágrimas na chuva..."

          Para quem eu direi as coisas que somente pra ela eu falava? A quem direi os códigos que usávamos nas nossas conversas? Somente nós dois sabíamos o que cada termo significava.

           "Ir a Niterói", "s-a-c", "nd", "co", "et", cada termo significando algo só nosso, e que se perderá "como lágrimas na chuva". Nunca mais usarei esses termos. Seus significados morrerão   comigo.  E sempre poderei também, rememorar nossas demoradas conversas, sobre tudo e  todos.   


   Coisas difíceis

 

  

       20 de março de 2002. Sueli acordou de manhã com fortes dores no peito e dificuldade de respirar. Insisto em levá-la ao médico, mas ela se recusa. Passa toda a manhã na cama,  resistindo a sair e procurar ajuda. Por volta das 1400h ela finalmente concorda que precisa ir ao médico   e eu a levo. Na policlínica, o médico constatou que ela estava enfartando. De ambulância, foi levada ao HCE e fez um cateterismo. Esse procedimento resolveu o problema mas a partir dessa ocorrência ela passou a tomar mais medicamentos, dessa vez para o coração.

            Lembro que ela comentou: "e agora, ainda mais isso".  

             Assim, além da aplicação mensal de hormônios (quimioterapia), além dos medicamentos ingeridos (quimioterapia), ela precisava tomar vários outros, durante o dia, para o coração.

              Em sua inocência, inacreditável inocência, ela ainda me perguntava: "até quando eu  vou ter que tomar esses remédios (da quimioterapia)?"


 

   Querido Diário

 

ELA VOLTARÁ

O quadro torto, mal dependurado,

Deixe assim, é como quero vê-lo.

Aquele jarro sem flores e rachado,

Deixe assim, é como quero tê-lo.

                    Deixe tudo do jeito que está

                Deixe tudo como você viu

              Pois tudo o que foi será

           Como no dia em que ela partiu ...

Eu quero ter na memória essa imagem,

Eu preciso guardá-la na lembrança.

Não quero agir como certos homens agem,

                    Prefiro mais ser um tolo, uma criança

                         Pois vou chegar ao fim dessa viagem

                                Carregando no peito uma esperança ...

                                                                                               [Vilaça]


 

   Querido Diário

 

14 de abril de 2006 - Eu pensava e até me diziam, que com o tempo, eu esqueceria...

"As coisas não precisam de você" (Marina Lima)

"Apesar de você... amanhã há de ser... outro dia"
(Chico Buarque)


Dias desses choveu bastante à tarde. A coisa ficou feia, com nuvens negras, baixas, carregadas. A água escorria na enxurrada, frente à minha varanda. Esse mau tempo durou cerca vinte minutos.

Depois, lentamente, a tarde foi ficando mais clara e a luz do sol buscava caminho entre a nuvens, agora calmas e claras.

E você não estava, pra fazer um comentário, dizer que chovera pouco ou muito, qualquer coisa. Qualquer coisa.

E fico pensando como essas coisas podem acontecer impunemente;   por que  o resto   do mundo ainda gira? E se você não está mais aqui, pra que chover? Lembra como você e eu gostávamos da chuva? Quantas vezes passeamos sob  chuva e nem nos importávamos com isso? Até ríamos e ríamos.

De que me vale ver o cimentado de nosso pátio da frente alagado, se você não está ao meu lado para comentar sobre isso?

Sei lá, acho que as coisas não deviam acontecer quando você não está. É até estranho que aconteçam.

Desculpe, mas sua ausência dói muito. É muito difícil aceitar que as coisas não precisam de você para que ocorram, e que amanhã será outro dia. Mesmo sem você.


 

   Coisas difíceis

 

Abril de 2006, dia 14. Fui dormir pensando nela, como sempre. Sonhei que estávamos numa     loja ou farmácia. Depois estávamos na calçada, ela na parte interna desta, como sempre, porque era perigoso que ela ficasse próxima aos carros que passavam. Eu tinha o braço sobre seus ombros e conversávamos animadamente sobre algo. Aqui termina o sonho.

Acordo pela manhã, é um sábado, penso que ela saiu sem me chamar pra levá-la até a feirinha de artesanato (ela me poupava de levá-la, para que eu dormisse um pouco mais). Me levanto rápido tentando ainda alcançá-la antes que saia. Coloco a mão na maçaneta da porta do quarto e só então me dou conta de que ela não vai mais pra feirinha. Volto pra cama, durmo até por volta de 14 horas e acordo com os olhos inchados.

Madrugada de 29 de abril, estou escrevendo isso, e ainda dói muito. Esta semana reformamos a varanda. Está bonita com duas lâmpadas na parede, pintada, com piso novo e com mármore branco novinho nos lados. Sem querer comentei com meu filho, que ajudava no reparo que fazíamos: "que pena que minha neguinha não está aqui pra ver isso..."   ele  me olhou cheio de tristeza e só pôde dizer: "é, isso é que é chato..."

Cada tijolo dessa casa enorme foi visto e aprovado por nós. Como esquecer isso?

Não consigo entender a vida sem ela. As coisas perderam o sentido, não tem mais graça alguma, não me interessa ver, fazer, terminar nada. 


 

   Querido Diário

 

            Terei dito aqui que não vejo a menor graça em nada que me cerca? Se não disse digo agora. Filmes que eu achava imperdíveis, não têm pra mim o mesmo apelo que antes. Eu os vejo como um modo enfadonho, mais um, de passar o tempo.

             Estamos em 13 de maio de 2006. Permanecem indeléveis na minha mente, as fortes imagens de nossa vida juntos. Felizmente elas não se apagam e sequer esmaecem.

             Melhor partir pra outra página. Pelo menos mudo a música. Só não consigo parar de escrever. Preciso continuar registrando tudo que vou relembrando. 

 

   Querido Diário

 

             Passaram-se 4 meses e 12 dias (estamos em 22 Jun 2006) e nada, nada mudou. Continuo abatido e sentindo muita falta das coisas ligadas a ela. Esse desânimo se traduz  na vontade de levar o carro para lavar, ou fazer algum conserto. Certas providências não me animo a tomar, chega a ser curioso, tudo que não é realmente importante vai ficando pra trás. E as coisas importantes, demoro a fazer. Sequer me animo a continuar a escrever, como se isso não fosse resolver nada, e não vai.

 

   Querido Diário

 

EDUARDO E MÔNICA

01/07/2006
Quando criança, eu era ardoroso leitor de histórias em quadrinhos. Foi ali que aprendi realmente a ler em razão da minha necessidade de entender o que diziam os personagens.

Sueli jamais leu uma revista de HQ. Que eu saiba ela nunca leu um livro. E foi professora de jardim.

Quando adolescente, comecei a ouvir e gostar do Rock de Elvis Presley e outros.

Sueli não gostava, não ouvia nem conhecia nada do assunto.

Primeiro através do rádio, depois na TV, eu gostava de histórias de aventuras, cenas emocionantes e vibrantes, velocidade, etc.

Sueli nunca se interessou por esse tipo de coisa e não dava a mínima atenção a isso.

Cheguei a ter um conjunto de Rock, que se apresentava até nas Rádios do Rio de Janeiro.

Sueli jamais cantou ou dançou. Não era o jeito dela. Gostava de algumas músicas de Elis Regina e outras de Cássia Eller.

Sempre, desde jovem, eu lia romances e devorava a revista Seleções do Reader’s Digest.

Sueli nunca leu uma revista dessas.

Sempre gostei de caminhar, subir montanhas (escalei o Pão de Açúcar), e acampar.

Sueli jamais gostou de caminhar, subir morros, etc

Detesto festinhas, reuniões, aniversários, casamentos, ou qualquer coisa que envolva um monte de gente conversando.

Sueli adorava tudo isso. Ficava feliz quando podia passar uma bandeja de salgadinhos entre os convidados, ou ajudar na preparação da festa.

.Eu sou um cinéfilo de primeira, que lê até os créditos no final do filme, que quer saber o nome dos atores, do diretor, etc.

Sueli não via um filme até o fim. Simplesmente saía da sala e ia fazer um café, ou outra coisa qualquer.

Ou seja:

Poucas vezes se viu um casal com interesses tão diversos. No entanto, nos entendíamos perfeita e harmoniosamente.

Como isso era possível? Porque nos amávamos apesar de tudo. E na cama, não havia nada que nós dois não gostássemos. Era perfeito, algo bem próximo do céu.

Como na música “Eduardo e Mônica” quem irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração?

Sentir não depende de nós. Podemos tentar ignorar, mas como ignorar a ausência, a voz, o carinho, da pessoa que amamos?
 


 

   Coisas difíceis

 

               Ontem, 23 de julho de 2006, fui ao Rio, a um almoço, em Madureira. Foi preciso cruzar toda a Alameda São Boaventura, em Niterói, e depois a ponte, descendo na Avenida Brasil. Mas não era esse o caminho que usei durante 16 anos, para ir e voltar do HCEx? Era. E foi doloroso pra mim, refazer o trajeto, sem ela. Eu o fiz com lágrimas nos olhos,   porque, ao contrário do que muita gente pensa, continuo sem um pedaço de mim. E é um custo viver sem esse pedaço, pequeno, mas o que eu tinha de mais importante na vida. 

                Algumas pessoas cometem a heresia de sugerir que eu devo voltar a me relacionar com alguém, sendo como sou, pessoa sem vícios, com a saúde perfeita, e isso chega a    me fazer sentir mal. Conversar com outra pessoa sobre sexo e amor, sem a presença dela?   alguém vai acreditar no que eu disser? Eu a amava profundamente, nos entendíamos    tão completamente que não há nenhuma possibilidade de que eu volte a me envolver com qualquer pessoa novamente. Repudio com veemência sugestões nesse sentido.

                 Por que essas pessoas não conseguem entender que minha vida terminou aqui?


 

   Ainda te vejo

 

      

       Estamos em agosto, dia 2. Você me olha e sorri, direto de um quadro na estante. Outro dia recebi um arquivo   PPS    que dizia o que eu pensava. Estava escrito lá, em belas letras: "Quero morrer um dia antes de ti. Não quero ficar um dia sem te ver", " Se acaso  morreres antes de mim, ao chegar lá, pergunta se podes levar um amigo".      Eram muitas frases     e todas diziam exatamente o que eu sentia e sinto.

            Você me olha o tempo todo, sorrindo seu melhor sorriso, cheio de meiguice,  do alto da estante da sala. Às vezes me pego respondendo ao seu sorriso. Às vezes choro sem que vejam. Às vezes tento me isolar pra pensar em você.

             Sinto dor, mas não remorso. Dei a você tudo que podia, fiz por você tudo ao meu alcance. Fui de uma dedicação que só o amor explica. No fim, fiquei sem o prêmio, que seria envelhecermos juntos.

              Milhares de  vezes vêm ao meu pensamento a sua frase, já perto do fim: "eu vou morrer, não vou?"

               Ah, Sueli, como é vazia a vida sem sua presença doce ao meu lado. 


 

   Querido Diário

 

             Estamos em outubro de 2006. Preocupa-me o quão perto estamos do natal.

             Você partiu numa sexta-feira chuvosa, triste. Uma chuva fina caiu quando você nos deixava pra sempre. Hoje, como naquele dia, a tristeza é a mesma. A dor de sua ausência não mudou. Ontem eu estava na varanda, olhando para o pátio quando começou a chuviscar. Sempre que isso acontecia,  eu a procurava na área de serviço, onde você estava sempre fazendo seus trabalhos de artesanato. E eu infalivelmente dizia: "tá chovendo". E você sempre respondia a mesma coisa: "você parece que gosta, né?". É que com chuva ela não iria pra feirinha, vender seus trabalhos em artesanato.

             É curioso o fato de que, passados tantos meses, eu ainda sinto a presença dela, quando ouço passos, ou vozes em alguma parte da casa. Parece que fico esperando que ela retorne de algum lugar, de algum modo. Algumas coisas, que eu gostaria de dizer a ela, fico guardando, como se ela ainda pudesse me ouvir, quando voltasse. Voltar de onde?

              Ela se foi numa sexta-feira, e eu fiquei o sábado e o domingo no espaço, no limbo, sem entender muito bem. Na segunda, reiniciei a rotina normal que consiste em levar minha filha ao trabalho e voltar. Mas voltar para que? Para onde?

               E foi assim que na terça, quatro dias depois que ela se foi, meu coração começou a dar sinais. Sinais assustadores. Fui ao médico, que não achou nada errado, mas mesmo assim, depois de ouvir minhas razões, resolveu prescrever remédios. Ainda os tomo. Mas o natal será muito difícil. A presença dela no natal era muito intensa, preocupada com presentes, com a ceia, com o que faríamos.

                Ainda não sei como passarei por isso, por mais essa data. Repito, me disseram que o tempo tudo cura, mas não há mudança, só o vazio que não se preenche de forma alguma. E eu fico esperando, esperando.

                Às vezes me deito e fico imaginando se existiria um modo de vê-la de novo, de ouvi-la e de falar com ela. Quanta tolice, quanta besteira, mas a verdade é que penso nisso. Como se o tempo pudesse voltar, fico sonhando com uma viagem no tempo.

                 Tenho tentando, mas nunca consegui colocar nessa tela o que sinto. Não há palavras que consigam descrever como me sinto.

                 Pode ser que no natal a dor da lembrança num coração fragilizado me leve até onde ela está. Não vejo razão para ficar por aqui. 


   Querido Diário

 

Outubro, 18, 2006

Um poema, afinal. Sem métrica, afinal... 

 

Agora, aquela roupa deixada sobre o lavatório, permanece ali

A água, fervendo no fogão, desiste e transborda pelo  chão

Você, pela manhã, não mais me acorda, com um sorriso

É a maior solidão que já vivi, que já viveu meu coração

                                                                                    

Agora, sou eu quem precisa olhar as plantas      

E  estas, solitárias, perguntam por você    

Você não mais trará meu almoço fumegante

E eu nem lhe perguntava: “ - e você?”

                  

Agora, o amanhecer é triste e nebuloso

Os pássaros se recusam a cantar

Você não está cuidando do café

Acordo, me lembro e começo a chorar

 

Agora, os dias não terminam nunca

Mas a noite quando chega não vai mais embora

Você não anda pela casa como sempre

Como queria sua  presença  agora

 

Agora, a vida perdeu todo sentido em ser vivida

Não há do que gostar, apreciar

Você não faz mais parte desse mundo

E espero a hora de a encontrar

 

                   [ Vilaça – 26 mar 2006 ] 

 

 

   Querido Diário

 

   Outubro, 21, 2006

   Antigamente, o avião da direita, C-82, carinhosamente chamado de "Sapão", era utilizado para o lançamento de paraquedistas. Saíamos pela porta, com violência e velocidade,  o coração aos pulos, de uma altura de cerca de 360 metros.

    Depois o avião passou a ser o C-119, parecido mas um pouco menos arcaico. Mais tarde vieram o Hércules e o Buffalo, estes com rampa, que permitia o salto pela parte de trás do avião. Se nos primeiros aviões saltávamos como u'a manada de elefantes, meio atabalhoados, saindo pelas portas laterais, nestes caminhávamos pela rampa e pisávamos no vazio do espaço. Uma sensação terrível, pois é necessária total confiança no equipamento.

     Imagine-se no alto de um prédio de de 360 metros de altura; imagine-se caminhando até a beirada e fitando os carros e pessoas bem lá embaixo. Então pise no vazio à sua frente. A mente sabe que algo não está certo e busca, desesperadamente, um ponto de apoio, o solo, uma parede, algo em que o corpo possa tocar, mesmo que com isso se machuque. É uma sensação de desamparo e fragilidade insuperáveis, mas logo corrigida pela abertura do paraquedas.

     Eu tinha o amparo que precisava aqui em casa. Qualquer problema era dividido e solucionado. Mesmo quando não havia jeito, havia o conforto que ela me dava. Era o chão que todos buscam e precisam, o apoio que ajuda na solução dos problemas. Ela gostava do pão bem escuro, mais tostado, e ainda hoje, é assim que o peço na padaria, embora pra mim nada signifique.

       Moro em casa própria, que sempre está precisando de algum tipo de reparo ou troca de alguma coisa, seja o chuveiro, seja a torneira, qualquer coisa, e tenho que decidir sozinho o que é o melhor, o mais adequado, para cada lugar. Outras pessoas opinam, mas não com a autoridade de quem ajudou a construir tudo isso do nada.

        Hoje, sou um pedreiro sem o servente. Sou o Batman sem o Robin. Sou o cinema sem a pipoca. Um rio sem mar que o receba, acolha.

         Sou um C-82 sem paraquedista.

         Sou um paraquedista sem paraquedas.


   Querido Diário

 

          Que dia é hoje? 25 de dezembro de 2006...

           Mas voltemos ao final de outubro. Era um sábado. Levei minha filha para sua pós graduação. Havia chovido bastante pela manhã bem cedo e tudo ainda estava encharcado. Nuvens grossas, feias, tempo fechado. Chovia um pouco, como que para esvaziar totalmente o céu.

            À tarde, por volta das cinco, lá ia eu buscar a menina. Só que agora, pela janela do carro entrava uma brisa leve, úmida, fresca, resultado da chuvarada da manhã, que deixara vestígios. O asfalto ainda molhado,  nuvens densas mas claras, no céu. E bem à minha frente, um trêmulo sol tentava me alcançar com seus raios agora frios, vazando por entre as muitas nuvens,  começando a mostrar nesgas de céu muito azul.  

             Nesses momentos, eu faria algum comentário sobre a beleza do momento e ela diria apenas: "é, bonito".

              Todo mundo diz que o tempo tudo apaga. Mentira. Eu me sinto ainda como se a tivesse perdido ontem. E a cada dia, as forças vão me deixando, como se estivesse sendo sugado em minhas energias. Não é preguiça, mas falta de vontade de criar e cuidar.

               Tudo me lembra ela. O natal, o ano novo, ela os fazia parecer mais do que são. Ia abraçar os vizinhos, recebia com as iguarias próprias da época, adorava festejar. É claro que seu brilho no olhar, há muito se fora. Ela tentava sobreviver ao seu pesadelo. Cada lembrança é uma dor que se renova e que não me deixa.

                Vivendo em eterna  lassidão, não me animo mesmo a escrever aqui. Por isso fico tanto tempo sem me pronunciar. Mas penso nela o tempo todo e não vejo qualquer sentido na vida sem a presença dela. As coisas perderam o sabor, a beleza. 

                 Vou apenas marcando o tempo, até que chegue meu momento. Sonhando que possa existir um outro mundo, melhor que esse, onde ela esteja, e onde eu possa reencontrá-la. E então falaríamos sobre as muitas coisas que nos fariam rir.

                  Mas é apenas um sonho, proibido a um ateu como eu.

                  Natal e ano novo sem ela... nunca pensei que isso pudesse acontecer. E que fosse doer tanto.


 

   Querido Diário

 

6 ago 2007

                 Hoje fui ao supermercado. Passei por aquelas bancas de novidades, ofertas, e vi muita coisa interessante. Como sempre, pensei nela e em como ela iria ver cada produto, preço, utilidade. E fiquei ali, pensando que ela estava ao meu lado, remexendo nas coisas, calculando como aquilo ficaria na nossa casa, essas coisas. Fechei os olhos e senti claramente (que bobagem), a presença dela ao meu lado. E foi quente, gostoso, harmonioso. Saboreei aquele momento, como aliás, faço sempre, enquanto puder.

                  A verdade é que as coisas, por mais que eu tente, não são as mesmas sem a opinião dela. Então fica assim: se eu compro algo na cor verde, não me incomodo nem um pouco se for azul.  O mesmo com relação ao tamanho, à marca, etc.

                  Outro dia vi uma miniatura de algo. Foi sufocante, irresistível, eu queria comprar aquilo, porque sei o quanto ela gostava dessas coisas diminutas. Hoje vejo em casa os produtos de limpeza, de cozinha e banheiro, de marcas diferentes das que ela usava sempre. Porque eu compro qualquer coisa que a empregada peça pra limpeza da casa. A marca um dia teve importância, hoje não. Qualquer coisa serve. Antes eu me preocupava em levar algo que pudesse ser prejudicial às mãos dela, caso ela precisasse usar.

                   Um ano e meio sem ela e não consigo dormir com a luz apagada. Ela sempre disse que com a luz apagada não conseguia respirar e por isso, sempre dormimos com a luz acesa. Sempre. E passado tanto tempo, não consigo ficar no escuro, pensando que ela não está respirando direito, quando ela sequer está mais ali.

                    Faz tempo não escrevo aqui, mas não tenho ânimo pra nada, nem pra escrever aqui e subir no Geocities. Mas penso muito nela e nunca passou pela minha cabeça ter outra pessoa em seu lugar. Isso acabou. O que tínhamos era tão bonito que qualquer outra pessoa iria estragar.

                     O flerte quando ela morou ao lado da minha casa. Depois o flerte no colégio. Depois o namoro. Depois o namoro sério, intenso. Tudo envolto num carinho especial, único. Sinto falta dela e de muitas coisas ligadas a ela. Até do leite com açúcar, fervido, quando eu tinha tosse, e sem que eu pedisse ou insinuasse.

                      Nossa primeira TV a cores foi uma Colorado RQ, último grito da moda, e o primeiro filme que vimos, foi com Ed Asner. O avião dele caiu e ele tenta sobreviver ao acidente, numa região gelada. Bons tempos.

                      Já bem doente. Ela e minha filha se juntaram pra me presentear com um gravador de CD/DVD - pelo qual pagaram, por inexperiência, quase 400 reais.

                      Ainda hoje dói lembrar certas coisas ditas por ela: "até quando eu vou tomar tanto remédio?"; "eu vou morrer, não vou?".

                      Quem aguenta essas lembrança? E quem aguenta a falta dela? Não eu, certamente. 

   Querido Diário

 

 

                 Segunda-feira, 24 de dezembro de 2007.

                  Ninguém perguntou, mas ainda sofro, e muito, a falta da Sueli. Agora, a lembrança dela fica mais longe, mas é vívida e dolorosa.

                  Não passa pela minha cabeça olhar para outra mulher, em qualquer lugar. Sinto falta é da sua pele macia, suas mãos sempre serenas e suaves.   Sinto falta de pegar sua mão. Tocar seus ombros, para uma conversa, um chamamento. E fico lembrando de tudo que ela falava, sobre tudo. Como é possível que ainda tentem me convencer de que existe um Deus? Que Deus permitiria que alguém passasse dezesseis anos tomando agulhadas, sendo submetida a todo tipo de exames, alguns dolorosos, outro cansativos, extenuantes, desagradáveis? Nunca houve, eu sei, possibilidade de cura. Minha vontade era parar com tudo e simplesmente esperar que ela vivesse bastante. Mas minha consciência não permitiria isso e eu sempre me julgaria culpado, quando ela se fosse.

                   Todo mês, por anos a fio, ela precisava se submeter a algum tipo de quimioterapia e para isso, era necessário o exame de sangue (para saber se ela suportaria a aplicação). Assim, uma vez por mês, ela precisava colher sangue. Veias maltratadas pela quimioterapia, as enfermeiras sempre tinham muita dificuldade para localizar o ponto onde poderiam colher o material. Começavam pelo braço e logo desistiam dali. O dorso da mão era a segunda linha de procura, depois passavam para os pés. Cada picada uma dor, por meses e anos a fio. E eu sabendo que isso não impediria sua morte. Só retardava.

                    Hoje penso nisso e fico angustiado. Tudo já passou mas para mim é presente, muito presente. Nunca me livrarei disso, sempre pensando no que eu poderia ter feito de melhor para ela, mesmo achando que fiz tudo que podia, mesmo além e acima das minhas possibilidades.   Quantas horas passei esperando que ela recebesse o demorado tratamento. Quando ela fazia quimioterapia num hospital da Lagoa, eu usava o tempo de espera para ir até uma feira próxima e comprar frutas (tangerinas, caquis, uvas), pois ela saía do tratamento como um trapo de gente. Deitava no banco de trás e ia comendo algumas frutas para aliviar a queimação que sobrevinha. Depois, eram três, quatro dias, vomitando, passando mal, sentindo dores. E eu sempre junto, acalentando, acariciando, fazendo-a dormir.

                     Alguém viu a data lá em cima?

                     Podem imaginar como me sinto? Essa era a data em que ela preparava tudo, mesmo que pouca gente aparecesse. Fazia rabanada, fazia salada de frutas, tinha vinho, peru assado, pernil (esse era pouco votado) e bacalhau com batatas. Tudo muito festivo e delicioso.

                     Podem imaginar como me sinto? Podem imaginar o tamanho da minha solidão? Podem avaliar minha dor, que tão bem disfarço para os meus filhos e quem mais estiver por perto? Duvido.

                      Vou desfrutar das comidas feitas por outros, com o coração apertado e imagem viva na lembrança, das frases, dos comentários, das avaliações rigorosas sobre essa ou aquela refeição, que ela fazia. "Esse bacalhau não ficou salgado?".     

                       Essa data não deveria existir. Não para mim, pelo menos. Essa data, sem ela, não precisa existir.

                       Não sei quando volto a escrever aqui. Dói muito.

 

 


   Querido Diário

 

         

               06 julho 2008

                Mais um dia se passa e eu vou vivendo, com a dor que nunca, em nenhum momento, se afastou de mim. Cada coisa, objeto, cada fato que me cerca, me acomete, me traz a lembranças dela. Incrível como coisas simples, comuns, trazem uma forte lembrança de algo que ela disse a respeito daque- le fato. Cada dia ela fica mais longe de mim, a cada dia, a lembrança das coisas se torna mais rarefeita, abstrata, mas em alguns dias, ela volta com força e bate firme em meu coração. Continua sendo difícil viver sem ela. Eu continuo precisando e precisando muito, de suas opiniões, de suas críticas, suas observações sobre tudo. Queria terminar a casa, comprar novas portas ou janelas, mas me contenho. Pra quê? A quem estaria agradando?

 

                Manhãs esplendorosas são também dolorosas. Tardes chuvosas são igualmente tristes e lúgubres. Mas as lembranças que manhãs e tardes me dão são incomparáveis. Há sempre algo que me vem à mente. Há sempre momentos que lembram momentos.

 

                 Engano todos à minha volta. Todos pensam que estou bem, recuperado, mas na verdade, nada me interessa mais. Filmes, músicas, livros, tudo me parece sem o menor sentido.

 

                 Lentamente vou tomando consciência de que isso tudo vai permanecer até que eu sucumba. Mas vou vivendo. Vivo das lembranças, vivo da foto dela sorrindo pra mim na estante da sala. Eu sorrio de volta e fecho os olhos pra lembrar coisas dela, coisas nossas.  

 


 


Tempo desde que Sueli nos deixou em 10.02.2006:

 


                                                                                                                                                                                  

                                                                                                                                                                                                          Mais? ...

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